Captulo 3

Crtica da Introspeco

Em trno dos fatos acreditados, aceitos e ordenados de tda cincia, sempre flutua uma espcie de nuvem de poeira das
observaes excepcionais. 
W. JAMES, The Will to Believe (A Vontade de Crer) 
Villiam James descreveu muito bem como um sbito intersse por certos fenmenos irregulares assinala, muitas vzes, o 
como de uma nova era na cincia. Em tais ocasies, o que fra excepcional torna-se, muitas vzes, o centro de trabalhos 
cientficos. Iremos, agora, travar conhecimento com a introspeco, em sua qualidade de processo pelo qual um sistema 
artificial de Psicologia  protegido contra seme- lhante revoluo. A proteo  alcanada por meio de uma tcnica que serve 
para afastar observaes particularmente interessantes. Ao estudar a introspeco, no pretendo considerar uma escola em 
particular. O que tenho a dizer se refere a todos os psiclogos que tratam a experincia da maneira que ser examinada nas 
pginas seguintes. 
Em sua maior parte, os adeptos da introspeco provvelmente concordaram com minha crtica do behaviorismo. De fato, 
alguns podem ter reconhecido seus prprios argumentos nos captulos anteriores. Qual , ento, a diferena que separa a 
introspeco do ponto de vista da Psicologia da Gestalt? Essa diferena tornar-se- evidente logo que consideremos como a 
experincia deve ser observada. Antes de mais nada, pretendo examinar a maneira pela qual os adeptos da introspeco 
tratam da experincia objetiva, campo no qual les se tm mostrado particularmente ativos. Por mais surpreendente que 
parea, as premissas de seu trabalho mostrar-se-o muito semelhantes s dos behaviorismo. 
No prprio momento em que procuramos observar a experincia de maneira imparcial, temos de ouvir as objees dos 
partidrios da introspeco. Se eu digo que estou vendo um livro, diante de mim, na minha escrivaninha, surgir logo a 
afirmao de que ningum pode 
ver um livro. Se eu levanto o livro, direi que sinto seu pso como algo que se encontra fora dos meus dedos e mais ou 
menos no lugar em que o livro tambm  visto, O crtico observar que estas afirmaes so tpicas da linguagem de um 
observador desprovido de conhecimento. Acrescentar que, para os objetivos prticos da vida quotidiana, tais afirmaes 
podem ser inteiramente satisfatrias, mas que nem por isso divergem grandemente das descries que um psiclogo 
esclarecido apresentaria. Por exemplo: as afirmaes implicam que as expresses o livro e escrivaninha se referem a 
objetos ou coisas. Em uru estudo correto de Psicologia, tais expresses no so admissveis, segundo os adeptos da 
introspeco, pois se a observao se destina a nos fornecer os dados simples e primrios referentes  experincia, devemos 
aprender a fazer a importantssima distino entre sensaes e percepes, entre o mero material sensorial e o conjunto 
de outros ingredientes com os quais sse material se impregnou, em conseqncia dos processos de aprendizagem. No 
podemos ver um livro  diz-nos o adepto da introspeco  porque esta expresso implica conhecimento acrca de certa 
classe de objetos,  qual pertence o espcime presente, da utilizao de tais objetos, etc. A simples viso nada tem a ver 
com tal conhecimento. Como psiclogos, cabe-nos a tarefa de separar tdas essas significaes adquiridas do material visto 
per se) o qual consiste de simples sensaes. Pode ser realmente difcil efetuar-se a separao e concentrarmos nossa 
ateno nas sensaes com as quais devemos estar inicamente preocupados, mas a capacidade de se conseguir tal coisa  
precisamente o que distingue o psiclogo do leigo. Todo o mundo deve admitir que, originainiente, o ato de pegar um livro 
no pode dar a experincia de um pso fora dos dedos que seguram o objeto. No como, pode ter havido apenas sensaes 
de contacto e talvez de esfro dos dedos. Donde se conclui que o pso externo deve ser o produto de um longo processo, 
no qual as puras sensaes de nossa mo se ligaram, pouco a pouco, a outros fatres. Um raciocnio semelhante mostra, 
sem demora, que, entre os legtimos dados sensoriais no cabe a existncia de objetos. Os objetos s existem para ns 
quando a experincia sensorial se impregnou completamente de significao. Quem pode negar que, na vida adulta, a 
significao impregna tdas as experincias? Isso leva, afinal, a uma espcie de iluso. Para um alemo, o substantivo 
Igel no parece caber a nenhum outro animal a no ser o ourio-cacheiro. No entanto, a palavra eagle que, em ingls, 
tem pronuncia idntica  de Igel em alemo, para um ingls ou norte-americano no pode representar outra coisa seno 
um uAdler))l 
Neste caso, teremos de admitir que devemos discriminar entre a experincia auditiva em si mesma, que  a mesma em ambas 
os idiomas, 
1 Acfler  guia em a1em.o (N. do A,) 
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e o sentido atribudo aos sons, que variam de um pas para outro. Outro exemplo: o sinal + d bem a impresso 
de seu significado de operao de adio, especialmente quando  visto entre dois nmeros; no entanto, podia 
muito bem ter sido escolhido como smbolo da diviso. Se, durante um momento, hesitarmos em aceitar essa 
afirmao, assim faremos apenas porque a conexo de uma significao particular com aqule simples sinal 
ficou em ns gravada desde que comeamos a freqentar a escola primria. Logo, porm, que a enorme fra 
da conexo tenha sido compreendida na presente situao, estaremos prontos a admitir que, provvelmente, 
coisa alguma da experincia pura de um adulto pode estar isenta de semelhantes influncias. At mesmo as 
mais impressionantes caractersticas de determinadas experincias podem derivar de tal fonte. 
Ora, a significao, sob sse aspecto, depende da biografia pessoal. Representa uma feio um tanto acidental 
de nossa experincia. Em Psicologia, deveremos, portanto, procurar deix-la de lado e concentrar a ateno 
apenas nas sensaes reais. O processo graas ao qual se consegue isso  chamado introspecao. 
Em meus tempos de estudante, todos os jovens psiclogos aprendiam perfeitamente essa lio, embora, em 
alguns casos, a doutrina fsse transmitida antes implicitamente que atravs de uma formulao clara. 
Infelizmente, se os partidrios da introspeco esto certos a sse respeito, a experincia direta em si mesma 
tem apenas valor limitado. De tda a experincia objetiva apenas sobrevivero, com tda a probabilidade, 
algumas partes, quando se completar a grande limpeza. 
Naturalmente, o problema principal consiste em saber de acrdo com que critrios algumas experincias devem 
ser escolhidas como legtimos fatos sensoriais, ao passo que outras so postas de lado como meros produtos 
da aprendizagem. Qualquer que seja a soluo, consideremos agora alguns exemplos que, em aspectos 
essenciais, diferem dos discutidos nos pargrafos anteriores. 
Suponhamos que, encontrando-nos em uma esquina, vemos um honem se aproximar de ns. le se encontrava 
a dez metros de distncia e, logo depois, a cinco. Que diremos acrca de seu tamanho a essas duas distncias? 
Estaremos inclinados a dizer que a ambas as distncias seu tamanho visual era aproximadamente o mesmo, mas 
somos advertidos de que tal afirmao  de todo inaceitvel. Uma simples considerao da tica geomtrica 
mostra que, durante a aproximao do homem, sua altura visual deve ter dobrado, e o mesmo se pode dizer de 
sua largura. Seu tamanho total dever, portanto, ter uma rea quatro vzes maior do que quando estava a dez 
metros. Para que isso se torne perfeitamente claro, deveremos repetir a observao no laboratrio. Ali, 
substituiremos o homem por dois retngulos de papelo, o primeiro de 5 x 7,5 cm e o segundo de 15 x 22 cm. Se 
o primeiro fr mantido diante dos nossos olhos a uma distncia de um metro e o segundo a uma distncia de 
trs metros, devem ter o mesmo 
tamanho, do ponto de vista da tica, uma vez que suas dimenses lineares variam exatamente como suas distncias. Na 
verdade, o retnguio colocado a maior distncia parece muito maior que o mais prximo. Mas isto  precisamente o que os 
partidrios da introspeco no aceitam como afirmao verdadeira sbre fatos sensoriais. Tal afirmao, sustentam les, 
no se pode referir  verdadeira experincia sensorial. E tambm nos oferecero uma prova de que sua opinio  certa. 
Convidar-nos-o a olhar, atravs de um orifcio, uma tela que colocam, diante dos nossos olhos. Os dois retngulos 
aparecero, ento, em um fundo hofnogneo, porque a tela esconde todos os outros objetos. Nestas condies, a diferena 
entre os tamanhos dos retngulos provvelmente ser um tanto reduzida. Se no desaparece inteiramente, o experimentador 
pode ir mais longe, ajudando-nos a ver os tamanhos como les realmente so, de acrdo com sua convico. Poder 
escurecer o aposento e acender a luz apenas por uma frao de segundo, o que servir para eliminar os niovimentos dos 
olhos e da cabea. E bem possvel que, ento os retngulos tenham o mesmo tamanho. O adepto da introspeco poder, 
tambm, convidar-nos a adquirir certa prtica, que no posso descrever aqui, e, depois de certa aprendizagem, os retngulos 
podero, na verdade, aparentar o mesmo tamanho, mesmo que sejam deixados de lado a tela com o orifcio e todos os 
outros recursos. Uma vez conseguido isto, o psiclogo da introspeco estar satisfeito. Agora  dir  voc j sabe o que 
quer dizer introspeco. Afinal de contas  acrescentar  os observadores submetidos  aprendizagem tm de achar que os 
retngulos so iguais. De outro modo, as pessoas poderiam chegar ao ponto de acreditar que a ps-imagem de um objeto 
muda seu tamanho, de acrdo com a distncia da qual elas o vem em uma tela, porque, na observao do leigo, o tamanho 
da ps-imagem no parece mudar, quando varia a distncia do ponto de fixao do lho. Naturalmente, de acrdo com o 
adepto da introspeco a ps-imagem no pode realmente mudar, uma vez que, naquelas circunstncias, a rea do ps-
efeito retiniano permanece rigorosamente constante. 
O exemplo que apresentarei em seguida pode ser considerado como conseqncia natural do primeiro. Quando jantamos em 
companhia de amigos, de que formato vemos os pratos na mesa,  esquerda,  direita e em frente de ns? Estaremos 
inclinados a dizer que vemos pratos redondos, justamente como o nosso prprio prato. Ainda nesse caso, porm,  uma 
afirmativa que o partidrio da introspeco no aceitar. De acrdo com le, os pratos devem ser eipticos. E acrescentar 
que quando tivermos raciocinado sbre  projeo dos pratos em nossa retina, teremos que admitir que isso .  verdade. D 
fato, alguns dos ptatos podem ser elipses bem chtas e o nosso prprio prato pde-se transformar em uma elipse, quando 
nossos olhos no baixarni sbre le verticalxnente. Tambm neste cas pode ser aplicado um processo semelhante ao 
usado no. exemplo. anterior. Em uma tela que  obqua 
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 direo da vista  apresentado um crculo e em outra perpendicular  direo da vista  apresentada urna elipse. O 
formato desta ltima figura  escolhido de tal maneira que sua projeo sbre a retina tenha a mesma forma que a projeo 
do crculo partindo de seu plano obliquo. Um observador destitudo de aprendizagem afirmar que v o crculo como 
crculo e a elipse como elipse. O adepto da introspeco, porm, contestar que, na verdadeira experincia sensorial, h 
duas elipses virtualmente idnticas. E nos oferecer uma tela com dois orifcios, atravs dos quais poderemos ver ambas as 
formas, mas que as privam dos dados, graas aos quais os ngulos dos planos podem ser reconhecidos a princpio. Ambas 
as figuras parecem semelhantes; ambas parecem elipses. Assim, o partidrio da introspeco parece ter chegado aonde 
queria. Com algum treinamento,  observar de nvo  qualquer pessoa pode perceber aqules fatos sensoriais verdadeiros, 
mesmo sem a tela, desde que assuma a atitude correta, a atitude de introspeco. Com maior elucidao, o observador 
notar que se uma ps-imagem  projetada em planos de ngulos diferentes com relao  vista, ver-se- a imagem mudar de 
formato, quando  projetada em um plano ou no outro. Como, durante essas observaes, os ps-efeitos retinianos no se 
modificam de modo algum, apenas pessoas mal informadas podero confiar no que les parecem nessas circunstncias. 
Assim, parece estar convincentemente demonstrada a importncia de serem observadas determinadas experincias 
sensoriais por meio da introspeco bem aprendida. 
Outra experincia paradoxal tem sido amplamente discutida desde que Helmhotz escreveu sua Physiologische 
Optik. Um observador sem aprendizado no v apenas tamanhos e formatos de objetos de maneira mais constante do 
que a que corresponde s variaes dos tamanhos e formatos retinianos; o mesmo se d na maneira com que le parece ver a 
claridade em sua relao com as intensidades variveis da projeo retiniana. Suponhamos que uma tela vertical  colocada 
sbre uma mesa, perto de uma janela e paralelamente  mesma. Do lado da janela, um papel prto  colocado sbre a mesa 
e, simtricamente, do outro lado da tela, um papel branco. Os papis so escolhidos de maneira especial: o escuro, que fica 
exposto  iluminao direta vinda da janela, reflete a mesma quantidade absoluta de luz que o papel branco, que recebe 
muito menos luz. Apesar disso, o primeiro papel parece prto e o outro branco.  mais uma observao que os partidrios 
da introspeco se negam a aceitar, porque, nas circunstncias dadas, as imagens projetadas sbre a retina do observador 
so ambas igualmente intensas. les presumem que as sensaes, isto , brilho dos papis deve ser o mesmo em ambos os 
casos. E acreditam tambm que essa qualidade pode, de fato, ser demonstrada. Mais uma vez, tomaro um pedao de 
papelo com dois pequenos orifcios e o colocaro de modo tal que, atravs de um orifcio, se v uma parte do papel prto 
e atravs do outro orifcio urna parte do papel branco. 
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Tdas as coisas que rodeiam os papis, a tela vertical, etc. so excludas da viso. E, nestas circunstncias, v-se, atravs 
dos orifcios, o mesmo matiz de cinzento.  claro que estas so as verdadeiras sensaes  afirmam os adeptos da 
introspeco, que, provvelmente, tambm explicaro que, depois de alguma prtica, qualquer pessoa poder reconhecer a 
igualdade dos dois brilhos, sem a ajuda de algum dispositivo especial. Quando isso se der, tais pessoas estaro aptas a 
observar com a atitude de introspeco. Quando os pintores ainda se mostravam interessados na observao dos objetos, 
geralmente assumiam essa atitude, a fim de ver o verdadeiro brilho das coisas. 
Todos sses fatos, as chamadas constncias do tamanho, formato e brilho, so, segundo sse ponto de vista, meras iluses, 
que tm de ser destruidas para que apaream os verdadeiros fenmenos sensoriais. Sob stes e outros aspectos, tais fatos 
so comparveis a muitas outras iluses de tica, cujos diagramas enchem as pginas dos livros didticos de psicologia. 
H, por exemplo, o famoso desenho de MllerLyer, a figura com as pontas de setas, entre as quais duas linhas iguais 
parecem ter comprimentos muito diferentes. Quando sse desenho  repetidamente examinado e se o sujeito se esfora para 
isolar das coisas que cercam as linhas objetivamente iguais, verificar que a iluso se torna menos viva, at que acabe 
desaparecendo inteiramente. Isso parece significar que a desigualdade das linhas  primeira vista no foi um fato sensorial. 
Se acreditarmos no que dizem os partidrios da introspeco, a mesma coisa tambm pode ser demonstrada da seguinte 
maneira: as duas figuras so desenhadas precisamente uma acima da outra. Se, ento, o observador concentrar a ateno nas 
duas extremidades esquerdas das linhas iguais, verificar ser vertical uma ligao imaginria entre essas duas extremidades. 
Se fizer a mesma coisa com as extremidades da direita, obter o mesmo resultado. Se tivermos algum conhecimento de 
Geometria, seremos obrigados a admitir que as duas linhas tm o mesmo comprimento. Do mesmo modo, pode ser 
demonstrado que a maior parte das outras iluses desaparece, se o observador tiver o cuidado de assumir a atitude analitica 
correta. Como podero, portanto, tais iluses ser consideradas como legtimos fatos sensoriais? 
Vejamos mais um exemplo. Durante os ltimos trinta anos, o movimento estroboscpico tem sido amplamente estudado 
por jsiclogos alemes e americanos. Em determinadas condies, a apresentao sucessiva de duas luzes, em dois pontos 
no muito distantes um do outro, d em resultado uma experincia de movimento do primeiro para o segundo. Se, porm, o 
observador adota a atitude de introspeco, nada mais encontra que um claro cinzento. Conseqntemente, o adepto da 
introspeco adverte que deve ser recebida com desconfiana qualquer informao a respeito de movimentos, de fato, em 
tal situao. No descreveram os pacientes de Benussi, experincias semelhantes quando dois pontos de sua epiderme eram 
tocados em rpida sucesso? 
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De acrdo com suas descries, o movimento experimentado no ocorria, pela maior parte, ao longo da 
superfcie da pele, e, sim, formava um arco sbre o espao vazio e s tocava a epiderme nos pontos do 
verdadeiro estmulo. Na opinio dos adeptos da introspeco, tal experincia no pode pertencer apenas  
esfera do tacto. Tdas as experincias tcteis ficam, naturalmente, na epiderme. 
Se tdas as observaes dessa espcie so iluses que nos enganam, no smente quanto  natureza de 
determinadas condies fsicas, mas tambm acrca de nossos prprios dados sensoriais, deve haver, ento, 
algum fator poderoso que obscurea sses dados, j que no so revelados pela introspeco. J sabemos 
qual  a natureza da influncia deformante. Pelo menos, os partidrios da introspeco esto plenamente 
convencidos, como nos exemplos anteriores, de que ela se identifica com o aprendizado. Raciocinam les da 
seguinte maneira: o homem que se aproxima de ns na rua parece tornar-se maior, como deveria parecer de 
acrdo com razes meramente ticas. O crculo que se encontra em um plano obliquo no nos aparece como 
uma elipse; parece continuar como crculo, embora sua imagem retiniana possa ser uma perfeita elipse. O 
objeto branco sombreado permanece branco, o papel prto plenamente iluminado continua prto, embora o 
primeiro possa refletir muito menos luz que o outro. Evidentemente, stes trs fenmenos tm alguma coisa em 
comum. O objeto fsico como tal permanece sempre o mesmo, ao passo que o estmulo de nossos olhos varia, 
quando so mudadas a distncia, a orientao ou a iluminao daquele objeto constante. Ora, o que parece 
que experimentamos concorda muito mais com a invariabilidade real do objeto fsico do que com os estmulos 
variantes. Da, as condies de constncia de tamanho, constncia de forma e constncia de brilho. Sem 
dvida alguma, era justamente isto que teramos de esperar, se tais constncias derivassem de nosso 
conhecimento da situao fsica, ou, em outras palavras, se surgissem em conseqncia de alguma forma de 
aprendizagem. Dia aps dia, desde a mais tenra infncia, verificamos que, quando nos aproximamos de um 
objeto distante, mostra le ser muito maior do que era, quando visto a maior distncia. Do mesmo modo, 
ficamos sabendo que os objetos colocados em posio obliqua no mostram sua forma verdadeira, quando os 
olhamos de frente. Tambm estamos perfeitamente famffiarizados com o fato de que objetos vistos sob 
condies anormais de iluminao mostram um brilho ou falta de brilho falsos que so substitudos pelo brilho 
ou falta de brilho corretos, quando as condies se normalizam. Tais observaes foram repetidas tantas 
vzes, e ficamos sabendo, to: bem que existem em cada caso os tamanhos reais, formatos. reais e o brilho real, 
que, pouco a pouco, nos tornamos 
incapazes de distinguir entre nosso conhecimento adquirido, e os fatos sensoriais verdadeiros. Em 
conseqncia, parecemos agora ver as caractersticas reais constantes, ao passo que j4 no se tornam 
reconhecveis os fatos sensorjais em si mesmos, que naturalmente, dependem da 
distncia, da orientao e da iluminao. Assim, a significao, o conhecimento ou aprendizagem so to eficientes nos 
presentes exemplos, como eram quando parecamos estar conscientes de coisas, de pesos no espao exterior, etc. 
Podemos aceitar a afirmativa dos adeptos da introspeco no sentido de que poucas experincias ficam inteiramente livres 
da influncia da aprendizagem. Afinal de contas, essa presuno no constitui 
novidade. Alm disso, les podem acrescentar que, se as pessoas desprovidas do devido treinamento, parecem ver aquilo 
que, segundo seu prprio ponto de vista,  apenas efeito da aprendizagem, trata-se apenas de uma iluso que tambm 
ocorre em outros casos: relembremos o smbolo + que aparece como sinal de adio. Os adeptos da introspeco, porm, 
apresentam outros argumentos que parecem sustentar sua interpretao. Todos os efeitos da aprendizagem passada 
smente podem ser eficazes at o ponto em que forem reconstitudos. Ora, a reconstituio pressupe que algumas partes 
da situao presente possam evocar o que foi aprendido no passado. No caso das constncias, tais partes so, entre outras, 
as distncias, as orientaes oblquas e as vrias iluminaes, como foram vistas em cada caso. Evidentemente, pois, se 
essas distncias, orentaes oblquas e iluminaes variveis j no so visveis, os tamanhos, formatos e claridade normais 
j no podem ser reativadas. Isso, porm, acontece precisamente quando as 
situaes aqui discutidas so observadas atravs de orifcios de uma 
tela. Em tais condies, so excludos da viso os ambientes em que 
se encontram as superfcies crticas e, com les, as distncias, orienta e e iluminaes. Em conseqncia, no pode haver 
lembrana do 
que aprendemos acrca daquelas situaes; as constncias devem desa parece e as superfcies apresentar por uma vez suas 
verdadeiras carac terstica sensoriais. O mesmo resulta do fato de poderem as cons tncia ser destrudas pela introspeco. 
Evidentemente, nesse processo, 
os tamanhos, formas e brilhos das superfcies so, em um certo grau, 
separados de seus contextos. Mas, como acabamos de ver, isso significa 
a separao dos fatres que iriam, de outro modo, provocar a lem 
brana do conhecimento prviamente adquirido.  mais do que natural, 
portanto, que, nessas condies, os fatos puramente sensoriais passem 
para primeiro plano. 
Se o tamanho e a forma das ps-imagens se mostram surpreendente ment variveis, quando a distncia e a orientao do 
segundo plano 
so mudadas, tambm isso parece conseqncia direta da explicao 
apresentada pelo introspeccionismo. As ps-imagens so localizadas no 
 segundo plano. Se a distncia e a orientao dsse segundo plano mais 
uma vez atuam como fatres de reconstituio, uma determinada ps- 
imagem deve parecer assumir tamanhos e formas diferentes, quando 
variam a distncia e a orientao do segundo plano. 
A mesma explicao nos ajuda a compreender porque as constncias 
no sobrevem, quando submetidas a condies extremas. A dez me- 
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tros de distncia, um homem parece ligeiramente menor que a uma distncia de cinco metros; a cinqenta 
metros, porm, parece ainda menor e a um quilmetro de distncia torna-se, na verdade, um objeto diminuto. 
Naturalmente, passamos a maior parte do tempo interessado pelos objetos que se encontram perto de ns. 
Aprendemos pouco, portanto, acrca das coisas que ficam mais longe e o resultado  que,  medida que 
aumenta a distncia, a expeflncia sensorial  cada vez menos obscurecida pelo conhecimento adquirido. 
Deve-se admitir que existe, em todos stes argumentos, grande fra persuasiva. Muitos psiclogos de modo 
algum duvidam da verdade da explicao, em funo do conhecimento adquirido. A explicao parece 
satisfazer uma tendncia muito natural do raciocnio humano. Os fsicos que jamais estudaram Psicologia daro 
a mesma explicao, logo que se familiarizarem com os fatos a que nos estamos referindo. Se apresentarmos os 
fenmenos a um calouro, le imediatamente apresentar interpretaes semelhantes. 
A teoria aplica-se a inmeros fatos. No h prticamente situao visual que no apresente algumas das 
experincias em questo. Quando abrimos os olhos, contemplamos tamanhos, formas e brilhos constantemente 
e dles poucos escaparo ao veredicto que lhes  imposto pelos partidrios da introspeco. No so os fatos 
em si mesmos que so excepcionais, mas apenas a demonstrao de seu surpreendente desvio do que se 
poderia esperar. Essa demonstrao  um caso de requinte psicolgico; os prprios fatos so assunto de 
todos os momentos e de todo o mundo. 
Mesmo assim, a extenso da experincia objetiva que no merece confiana ainda no foi esgotada nestas 
pginas. A localizao de objetos  susceptvel de crtica semelhante. Quando fixo um ponto diante de mim, 
vejo os objetos em trno dle em vrios lugares, que correspondem s diferentes posies de suas imagens em 
minha retina. Se eu agora fixar outro ponto, os mesmos objetos aparecero em outros lugares, uma vez que 
suas imagens passam a ocupar novas posies na retina. Na realidade, porm, os objetos no parecem ter-se 
movido. Quando os olhos se movem, a localizao daqueles objetos no espao se mostram virtualmente 
independente da posio retiniana. Podemos, tambm, escolher a velocidade do movimento visto. O mesmo 
movimento fsico pode ser visto de muitas distncias diferentes. Quando me acho a dez metros de um objeto 
em movimento, a velocidade retiniana corresponder a metade da que seria a uma distncia de cinco metros. 
No entanto, em minha experincia, a velocidade parece ser mais ou menos a mesma, em ambos os casos. 
Evidentemente, a explicao que foi apresentada para as constncias do tamanho, forma e brilho tambm se 
aplica  constncia da velocidade visual. Dsse modo, das experincias objetivas em trno de ns pouco resta 
que possa ser considerado como verdadeiro fato sensorial pelos partidrios da introspeco. 
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E de modo algum isso constitui a mais sria conseqncia dos pontos de vista defendidos por aquela escola. 
Aparentemente, os aspectos da experincia que so interpretados como produtos do conhecimento no sero apenas 
excludos do mundo sensorial, como tambm devem ser excludos das pesquisas em geral. Em sua maior parte,  verdade, os 
adeptos da introspeco hesitariam em admitir tal coisa como princpio explcito; em suas pesquisas, porm, realmente 
procedem como se o adotassem. Basta uma experincia ter o infortnio de ser assim interpretada, para que les passem a se 
interessar to pouco por sua existncia quanto se interessariam por um assunto da Astronomia. Isso quer dizer que as 
eicperincias mais objetivas no representam virtualmente papel algum na psicologia da introspeco. De fato, sempre que 
a observao entra em contato com algum fenmeno pouco habitual e, portanto, particularmente interessante, o partidrio 
da introspeco se apressa em apresentar sua montona explicao e se mostra, pois, muito pouco propenso a dar mesmo 
uma ligeira ateno a tal fenmeno. Ora, isto corresponde a uma situao bem sria. Seja certa ou errada a explica ao 
emprica, como tem sido chamada a explicao baseada no conhecimento anterior, o fato  que na vida quotidiana temos 
de nos haver quase exclusivamente com a experincia objetiva direta, que  posta de lado pelos partidrios da introspeco. 
Todos os nossos intersses se dirigem para essa experincia comum. Milhes de pessoas jamais transformaram os objetos 
do ambiente em que vivem em verdadeiras sensaes; continuaro sempre a reagir em face de tamanhos, formas, brilhos e 
velocidades, tais como os encontram, a gostar ou no gostar das coisas tais como estas lhes aparecem, sem o recurso  
introspeo, e no tero contacto, portanto, com fenmenos ou fatos sensoriais particulares, pelos quais a introspeco 
mostra tanto carinho. Assim, se tiver de prevalecer sua atitude, tais experincias, como forma modelar de tda a nossa vida, 
jamais poderiam ser sriamente estudadas. A Psicologia deveria observar e discutir tais experincias apenas como se 
mostram, para a maior parte de ns, ocultas para sempre sob a capa de caractersticas meramente adquiridas. Ainda mesmo 
o mais competente psiclogo adepto da introspeco carece de conscincia de seus verdadeiros fatos sensoriais, a no ser 
quando assume sua atitude especial, que  felizmente para le  pe de lado, quando sai do laboratrio de Psicologia. To 
afastado da experincia comum est seu verdadeiro mundo sensorial que, se consegussemos algum dia aprender suas leis, 
tdas elas juntas no nos trariam de volta ao mundo em que realmente vivemos. Assim sendo, os adeptos da introspeco 
no se podem queixar de seu prprio destino. Sua psicologia  de todo incapaz de nos satisfazer por muito tempo. Como 
aqules psiclogos deixam de lado as experincias da vida quotidiana e concentram sua ateno em fatos raros, que smente 
um processo artificial pode revelar, tanto o pblico especializado quanto o leigo acaba, mais cedo ou mais tarde, perdendo a 
pacincia. E ainda acontece outra coisa. Haver psiclogos 
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que levam a srio suas palavras, quando afirmam que o seu mtodo  o nico correto para encarar as 
experincias. Se isso fr verdade, diro os psiclogos, o estudo da experincia no nos pode interessar, sem 
dvida alguma. Faremos uma coisa mais realista: estudaremos o comportamento natural. Atualmente, sabemos 
que aquilo que fra considerado como conseqncia das concepes da escola da introspeco j no  uma 
possibilidade, mas um fato, O behaviorismo surgiu em grande parte como reao contra aquela escola. 
Mas voltemos ao nosso estudo do introspeccionismo. No seria justo chamar suas descobertas de irreais. 
Quando aplico os mtodos daquela escola, freqentemente deparo com as mesmas experincias com que 
deparam seus adeptos. Estou, porm, longe de atribuir a tais fatos um grande valor, como se les fssem mais 
verdadeiros do que os fatos da experincia quotidiana. Se a experincia comum acarreta conhecimento 
adquirido, as experincias reveladas pela introspeco dependem da atitude introspectiva. No se pode provar 
que existam tambm na ausncia de tal atitude. Alm disso, se admitirmos, por um momento, que todos os 
fenmenos sbre os quais estamos falando, so, na realidade, produtos de conhecimento prviamente 
adquirido, teremos de deduzir que todos sses fenmenos no so fatos reais e, portanto, desprovidos de 
significao psicolgica? No ser certa quantidade de H20 que tenho diante de mim um verdadeiro composto 
qumico porque sei que le  formado pela oxidao do hidrognio? Seria o hidrognio um verdadeiro corpo 
qumico e a gua no? No deve a gua ser estudada pelo qumico? No vejo por que motivo uma experincia 
impregnada de conhecimento adquirido deva ser considerada como menos importante que as experincias que 
no sofrem tal influncia. Tomemos o caso do smbolo +, cuja aparncia  certamente afetada pelo nosso 
conhecimento de uma operao matemtica. Quando o vemos entre nmeros, le nos aparece como mais, 
isto , a significao adquirida parece localizada no campo visual. Trata-se, sem dvida, de um fato estranho 
que provoca de pronto fascinantes indagaes. Por que no investigaremos tais problemas? A situao 
corresponde exatamente a tdas as outras experincias, s quais, correta ou incorretamente, a explicao 
emprica est sendo aplicada. No h nenhuma razo para que ignoremos os problemas que elas abrangem, 
quando lhes so prsas etiqutas tais como aprendizado, significao e conhecimento prviamente adquirido. 
A verdade  que os problemas dessa espcie merecem especial ateno. Entre os exemplos que consideramos 
aqui, h duas espcies de fenmenos. Um dles, ao qual pertence o smbolo +,  definido claramente pelo fato 
de sabermos realmente como, durante a infncia, certo conhecimento penetra em uma determinada experincia. 
No segundo tipo, que  representado pela maioria de nossos exemplos, no dispomos de tal elemento de 
informao. De modo algum foi provado que a objetividade das coisas, a localizao de pesos fora de nossa 
mo, 
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as constncias dos tamanhos, forma, velocidade, localizao, brilho, etc., so realmente produtos do 
aprendizado. Para a maior parte de ns, pode parecer extremamente plausvel que se trate de coisa real; mas 
nenhuma das observaes e argumentos que mencionei a respeito pode ser considerada como prova 
convincente da tese emprica. Trata-se, assim, de mera hiptese a suposio de que os fatos da segunda classe 
no sejam essencialmente diferentes dos da primeira e como hiptese deve ela ser, portanto, expressamente 
reconhecida. 
O que se costuma fazer com uma hiptese  submet-la a provas. Os adeptos da introspeco submetem a 
provas suas presunes empricas? No vemos qualquer indcio de que les faam ou pretendam fazer tal 
coisa, uma vez que, feita a suposio, os adeptos daquela escola j no mais se interessam pelos fatos. Em 
conseqncia, se todos os psiclogos pertencessem quela corrente, tais presunes jamais seriam 
examinadas.  um fato lamentvel, tanto mais quanto muitos psiclogos se irritam quando suas convices 
empricas so chamadas de hipteses. Se tais convices no passam de presunes, que outras explicaes 
poderia oferecer a Psicologia da Gestalt? Com tda a probabilidade, nossa crtica s teses empricas constitui 
apenas o como, e seguir-se-o novas noes, mais ou menos fantsticas, sbre a funo sensorial. 
Quando uma discusso cientfica segue essa direo,  que encontrou alguma pressuposio profundamente 
enraizada que no se quer que seja considerada como questo aberta. Isso torna ainda mais evidente que a 
atitude dos adeptos da introspeco constitui um perigo para o progresso psicolgico. Suponhamos, por um 
momento, que as constncias de tamanho, forma, velocidade, localizao, brilho, etc., nao sejam, na realidade, 
produtos do aprendizado. A conseqncia seria que todos sses fenmenos pertencem  experincia 
sensorial. Mas, ento, a experincia sensorial constituiria algo fundamentalmente diferente do conjunto de 
sensaes que constitui o mundo sensorial dos adeptos da introspeco. Seguir-se-ia que deve ser posta de 
lado a sua concepo da funo sensorial. Naturalmente, depende inteiramente da validade da tese emprica a 
necessidade ou no de chegarmos a essa concluso. Mas precisamente essa tese emprica  que parece no 
poder ser livremente discutida e verificada.  uma situao raelmente estranha: tal como  utilizada pelos 
adeptos da introspeco, a explicao emprica faz o papel de um baluarte que protege seus pontos de vista 
particulares acrca da funo sensorial. Parece que os adeptos da escola adotam a tese emprica, no tanto 
porque ela seja atrativa, mas porque sua firme crena a respeito de certa natureza dos fatos sensoriais no lhes 
permite admitir certas experincias. Essas exeperincias irregulares so constantemente contestadas pela 
presuno emprica e, portanto, essa presuno deve estar certa. Ver-se- que esta  a interpretao correta da 
atitude da escola da introspeco, quando examinarmos com atenao seus argumentos a favor da hiptese 
emprica. Tais argumentos 
tm pouco a ver com a aprendizagem, mas muito a ver com as convices acrca do mundo como pura 
experincia sensorial. 
Vejamos, por exemplo, a constncia do brilho. Um papel branco sbre o qual h uma sombra aparece como 
branco, um papel prto vivamente iluminado continua prto, embora em tais condies o papel branco possa 
refletir menos luz do que o prto. Nesta experincia, o branco e o prto per se dizem aos psiclogos partidrios 
da introspeco que so produtos de aprendizado anterior? De modo algum. O argumento do psiclogo em 
questo , ento, inteiramente indireto: 
como a observao  incompatvel com suas crenas acrca da natureza das verdadeiras sensaes, ela no 
pode ser aceita. Que faz le, ento? No se embaraa, de modo algum. Interpretada como mero produto do 
aprendizado, a constncia do brilho torna-se, logo, de todo inofensiva. 
Acompanhemos mais pormenorizadamente sua argumentao. Na presente observao, pode-se mudar o 
brilho dos papis, olhando-se para les de um modo especial. Assim sendo, diz o adepto da introspeco, o 
brilho, tal como foi visto a princpio, pode no ter sido uma legtima experincia sensorial. Essa afirmao, 
evidentemente, implica uma pressuposio sbre a natureza dos fatos sensoriais. Tais fatos, presume o 
psiclogo da introspeco, devem ser independentes das mudanas de atitude do observador. Neste ponto, 
porm, seu raciocnio no  inteiramente consistente. Se, em uma atitude de introspeco, um banco aparente 
pode ser transformado em um matiz escuro e um negro aparente adquirir uma claridade relativa, a mudana 
oposta ocorre espontneamente, to logo  posta de lado aquela atitude. Assim, os verdadeiros brilhos que se 
disse terem sido revelados durante a introspeco eram exatamente to mutveis quanto os brilhos que vimos 
antes e estamos agora vendo de nvo. Do ponto de vista puramente lgico, as experincias encontradas 
durante a introspeco podem, portanto, tambm ser rejeitadas, uma vez que desaparecem quando o 
observador volta  sua atitude quotidiana. O adepto da introspeco, portanto, aplica dois pesos e duas 
medidas para tratar das duas experincias. Sustenta que o que constata durante a introspeco  uma 
experincia verdadeira e que ela persiste quando le volta a uma atitude mais simples, embora de nvo 
obscurecida pelos efeitos do conhecimento. Deve haver, portanto, outra crena que o faz preferir suas prprias 
experincias sensoriais especiais. 
Esta outra crena  fclmente identificada. Por que se mostra o adepto da introspeco surpreendido com as 
constncias do tamanho, formato, localizao, velocidade e brilho? Por que no encara sses fatos em seu 
valor aparente? Evidentemente porque, em vista das condies de estmulo, esperava le ter experincia de 
todo diferentes das que tem na realidade. O tamanho visual, dir le, deve ser proporconal ao tamanho 
retiniano; modificaes no formato retiniano devem ser acompanhadas por modificaes na forma avistada; a 
localizao no campo visual deve variar com a posio retiniana, a velocidade visual 
com a velocidade retiniana e o brilho visual com o brilho retiniano. Ora, ao passo que a experincia quotidiana 
do leigo contradiz constantemente essas expectativas, a atitude especial cultivada pelo psiclogo partidrio da 
introspeco consegue obter aquelas outras experincias que sempre deveramos conseguir. ste  o fato que 
leva aqule psiclogo a preferir suas constataes particulares e que o leva tambm a acreditar em uma 
existncia permanente, embora oculta, de tais sensaes puras. Torna-se aparente, assim, que o processo e 
os resultados da introspeco so sancionados por sua concordncia com certas premissas acrca da relao 
entre o estmulo e a experincia sensorial. As mesmas premissas, naturalmente, nos levam  condenao de 
muitos fenmenos, tais como as constncias. Ningum, que no perceba ste ponto decisivo, pode 
compreender o sentido da introspeco. Quantas vzes, quando estudante, aprendi nos livros que a iluso de 
Mller-Lyer no representa um verdadeiro fato sensorial porque pode ser destruda pela observao analtica e 
prtica correspondente. Se isto fr considerado como prova,  evidente que se atribui maior valor a uma 
espcie de experincia que a outra. Por qu? A resposta  que uma das experincias est de acrdo com o que 
o estmulo perifrico nos leva a esperar, e a outra no. A experincia que no est de acrdo  posta de lado 
com a ajuda de presunes empricas ou outros recursos da mesma espcie. Esta , portanto, uma segunda 
convico fundamental em que se apoiam as decises cientficas da escola da introspeco: as caractersticas 
das verdadeiras experincias sensoriais dependem das caractersticas correspondentes dos estmulos 
perifricos. 
A crena dos adeptos da introspeco assume uma forma ainda mais extremada. Como procedem les para 
encontrar os verdadeiros fatos sensoriais, no caso da constncia do brilho, por exemplo? Procuram isolar 
partes do papel branco e do prto, de maneira que as mesmas j no estejam relacionadas com seus ambientes 
especficos. Parece que tambm o isolamento  o processo pelo qual a iluso de Mller-Lyer pode ser 
eliminada, e o mesmo se d em todos os outros casos. Essa atitude analtica ter efeitos semelhantes aos da 
tela com um orifcio, que esconde os ambientes especficos dos objetos, assegurando-lhes, em vez disso, nvo 
ambiente homogneo. Se, ento, os fatos perturbadores desaparecerem, sse efeito do isolamento  explicado 
pela excluso de todos os fatres que deformam a verdadeira situao sensorial. Como operam sses fatres? 
Segundo os partidrios da introspeco, les atuam como sugestes para os processos de reestruturao que 
importem em conhecimento prviamente adquirido. Somos levados a observar que ainda a sse respeito a 
interpretao da escola introspectiva  unilateral. Sem sombras de dvida, o isolamento de fatos no campo 
sensorial afeta tais fatos, que, nestas circunstncias, se tornam mais estritamente relacionados com as 
condies estimulantes locais. Para isso, porm, podem ser dadas duas explicaes inteiramente diferentes: 
(1): A verdadeira experincia sensorial depende sempre apenas do 
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estmulo local, e  smente a reestruturao do conhecimento prviamente adquirido que depende dos fatres do ambiente. 
Esta  a opinio dos introspeccionistas. Ou (2): Nossa experincia sensorial em determinado lugar depende no smente 
dos estmulos correspondentes a sse lugar, mas tambm das condies estimulantes no ambiente. Observarei logo que 
ste  o ponto de vista sustentado pela Psicologia da Gestalt. Tanto com a segunda, como com a primeira interpretao, o 
isolamento e a introduo de um ambiente homogneo concorrero para fazer com que a experincia local corresponda 
melhor ao estmulo local. Os adeptos da escola introspectiva, porm, admitem apenas uma escolha. Preferem a tese que 
lhes permite acreditar que os fatos senso- riais locais so estritamente determinados pelos estmulos locais. Sua 
parcialidade a sse respeito tambm  evidente, quando no se trata de presunes empricas, mas de outras hipteses 
pelas quais les protegem sua imagem de um mundo sensorial simples. Para citar um exemplo bem conhecido: quando os 
sujeitos movem os olhos ao longo das linhas principais do desenho de Mller-Lyer, que so objetivamente iguais, verifica-
se que sses movimentos tm amplitudes diferentes nas duas partes do modlo, e a diferena corresponde  diferena de 
sua aparncia, isto ,  iluso. Disso se tem concludo que a iluso no  um fato visual, e, sim, causada por sses 
movimentos assimtricos dos olhos, ou, pelo menos, pelas tendncias enervadoras correspondentes. Essa afirmativa  
tendenciosa, porque, no caso de as duas linhas terem de fato comprimentos visuais diferentes, os movimentos dos olhos ou 
tendncias enervadoras seriam, como  natural, igualmente assimtricos. Smente uma pessoa com o esprito preconcebido 
pode chegar  concluso de que tais observaes provam a origem indireta do efeito de Mller-Lyer. E qual  o preconceito 
de tal pessoa? Ela no admitir, em qualquer circunstncia, que o comprimento de uma linha depende de mais condies 
que o comprimento de sua imagem retiniana. A presuno mais fundamental da escola introspectiva , portanto, esta: 
os fatos realmente sensoriais so fenmenos locais que dependem de estimulo local, mas de modo algum das condies 
estimulantes de seu ambiente. Smente se conhecermos esta regra, poderemos compreender em que ocasies os adeptos da 
introspeco a pem em prtica. Rarissirnas vzes os vemos pondo em prtica a introspeco, quando sao obtidas simples 
relaes entre estmulo local e fatos sensoriais, sem um esfro particular. Onde, porm, tais relaes no podem ser 
obtidas prima facie, os adeptos da escola introspectiva recorrem tanto ao processo da introspeco quanto s presunes 
que servem para proteger sua tese principal. 
Nossas indagaes nos levaram a notvel resultado. A princpio, os dogmas da introspeco apresentavam-se contrastando 
vivamente com 
1 Esta  a famosa hiptese do mosaico. Alguns partidrios da Introspeco tm afirmado que a Psicologia da Gestalt tambm tem de reconhecer 
certas relaes entre as condies estimulantes e os fatos sensoriais. Sem dvida No argumentamos contra as relaes entre tais condies e os 
fatos sensoriais em geral, mas apenas contra a rigida relao entre o estimulo local e a experincia local. 
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os pontos de vista do behaviorismo. Se os partidrios da escola introspectiva no so os advogados da experincia direta, 
que outros poderiam desempenhar sse papel? Na verdade, contudo, sse entusiasmo pela experincia direta sofre evidente 
limitao. A escola da introspeco segue as ordens de uma autoridade para a qual o testemunho da experincia em si 
mesma pouco significa. Essa autoridade submete a experincia direta a processos de joeiramento, julga defeituosa a maioria 
dles e condena-os a medidas corretivas. A autoridade  comumente chamada de fisiologia dos rgos sensoriais. Lsse ramo 
da Fisiologia tem idias muito definidas acrca das funes sensoriais do sistema nervoso. Quando o adepto da 
introspeco se refere  Fisiologia, parece referir-se a um servo prestimoso. Quando examinamos os fatos, porm, 
verificamos que o servo  o patro do psiclogo da escola introspectiva. 
Assim sendo, diferiria essa escola tanto do behaviorismo como nos pareceria  primeira vista? Se compararmos as 
premissas fisiolgicas da escola introspectiva com as do behaviorismo, logo compreenderemos que, ao contrrio, as duas 
escolas, a tal respeito, tm muita coisa em comum. 
Os principais conceitos do behaviorismo so os do reflexo e do reflexo condicionado. A principal caracterstica da ao 
reflexa consiste no fato de os impulsos nervosos se moverem partindo de um receptor, ao longo de caminhos determinados, 
para centros determinados e dstes, ao longo de outros caminhos determinados, para um rgo motor. Essa concepo 
explica a ordem das reaes orgnicas em sua dependncia para com determinados estmulos: a ordem  posta em vigor por 
uma disposio particular dos condutores.  bem verdade que os behavioristas no supem que tais dispositivos 
anatmicos so inteiramente rgidos e constantes. Embora, contudo, seja admitida certa difuso da excitao, o nico valor 
biolgico dessa tolerncia  visto no fato de que outras condies, que podem tornar as conexes muito rgidas, tm 
assim certa amplitude de possibilidades de se fazerem sentir. Dste modo, a ordem da funo , at certo ponto, 
determinada pelo arco reflexo, mas, no nvel mais elevado do sistema nervoso, podem ser estabelecidas (ou bloqueadas) 
conexes por outro fator. ste outro fator  o condicionamento. 
Depois disso, podemos, agora, fazer a comparao com as idias em que se baseiam os critrios introspectivos, relativos  
verdadeira experincia sensorial. Em primeiro lugar, a sensao local depende do estmulo local. No depende de outros 
processos no sistema nervoso, nem mesmo daqueles que procedem de partes adjacentes do mesmo rgo sensorial. A nica 
presuno capaz de explicar essa independncia da sensao local  a conduo de processos, ao longo de caminhos 
isolados, de um ponto do rgo sensorial a um ponto do crebro, onde a atividade  acompanhada pela experincia 
sensorial. Isto, porm, constitui apenas a primeira metade do arco reflexo, de sorte que, a esse respeito, a escola da 
introspeco est em inteiro acrdo com O 
behaviorismo. Ora, se muitas vzes a experincia no parece obedecer a ste princpio, o motivo disso reside 
em um segundo princpio. Em um nvel mais alto do sistema nervoso, ainda podem ser formadas, 
desenvolvendo-se individualmente, conexes que no existiam originariamente. Em conseqncia disso, certas 
experincias sero regularmente seguidas e acompanhadas de outras, em particular sob a forma de 
reestruturao que ajunta seu material aos daquelas experincias. Em sua essncia, ste princpio  o mesmo 
do condicionamento, uma vez que, em ambos os casos, a formao de novas conexes  o ponto principal. 
Tambm aqui no encontramos diferena real entre a introspeco e o behaviorismo. 
Durante a viva discusso das duas escolas em trno da questo de saber se o processo adequado em 
Psicologia  a introspeco ou a observao objetiva, no ocorreu a nenhuma delas que pode haver uma outra 
questo muito mais premente a saber: se so corretas suas presunes comuns sbre o sistema nervoso. 
Ambas as escolas parecem considerar tais presunes como evidentes. E, uma vez que suas premissas 
essenciais so tidas por ambas como certas, no nos podemos surpreender ao encontrar na escola da 
introspeco o mesmo conservadorismo que j havamos notado no behaviorismo. 
Em sua maior parte, os adeptos da escola da introspeco no do mostras de ter compreendido que a 
Psicologia  uma cincia muito nova e que, portanto, seu futuro deve depender de descobertas de que no 
suspeitamos at agora. Pelo menos na experincia sensorial, os fatos essenciais de tdas as observaes 
possveis lhes so finalmente fornecidos antes que les comecem a observar. Assim sendo, mostram les uma 
atitude negativista, sempre que as observaes no coincidem com a verdade estabelecida, e sua 
experimentao tende a tornar-se um mero processo defensivo. Se outros apontam para novos fatos que no 
se ajustam aos seus pontos de vista, os psiclogos se apressam em remover o elemento perturbador, por meio 
da introspeco e outras presunes auxiliares. A crtica de observaes novas  um saudvel procedimento 
na cincia, mas conheci partdrios da introspeco que passaram sua vida, como cientistas, defendendo 
ferozmente seus dogmas. 
Nestas circunstncias, no vejo porque a escola da introspeco seja prefervel ao behaviorismo. Em suas 
idias fundamentais, as duas escolas so to semelhantes que tdas as suas disputas me fazem lembrar as 
desnecessrias brigas em famlia. De qualquer maneira, os principais problemas da Psicologia da Gestalt 
referem-se a uma questo que jamais  mencionada naquelas discusses, porque para aquelas escolas ela 
ainda no existe:  verdade que os processos que suportam a experincia e o comportamento dependem das 
conexes de condutos nervosos e que as alteraes na condutividade dessas conexes constituem um 
desenvolvimento do indivduo? 
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